Últimas Notícias

Psicóloga delmirense fala sobre caso em Suzano e dá orientações aos pais

Juliana Kelma fez uma avaliação sobre a situação envolvendo garotos e atitudes dos jovens que apresentam algum problema.


Após o Brasil vivenciar um dos momentos mais tristes com o ataque criminoso em uma escola na cidade de Suzano-SP, a reportagem do italotimoteo.com.br entrevistou a psicóloga Juliana Kelma. Na conversa diversas perguntas foram feitas a especialista entre elas, como os pais/responsáveis devem agir com esse tipo de pessoa e como ela avaliava a situação das escolas no município.

Confira na íntegra:

Como avalia a situação envolvendo os garotos que praticaram o ataque à Escola em Suzano-SP?

Bom, a situação além de impactante e entristecedora, é bem complexa.
Não há condições de se estabelecer de fato o motivo exato, pois os adolescentes que praticaram o ato vieram a óbito. Contudo abre-se um espaço para a reflexão...

O comportamento é fruto de uma interação biopsicossocial, mediado por variáveis ambientais sejam elas estruturais, térmicas ou mesmo da própria relação humana.

Há citações de que esses jovens fossem veteranos da escola, tiveram vivências naquele referido ambiente, sejam elas com histórias marcadas por algum “trauma” ou não, ou seja, motivadas por distorções cognitivas, leia-se aqui, crenças ou princípios/valores pessoais inadequados socialmente, ou fora de um padrão de normalidade, quanto a este último termo, fala-se em uma forma de pensar e agir que não ofereça risco ou prejuízo a si ou ao outro.

Visto que o comportamento é fruto de uma relação biopsicossocial, como citado anteriormente, há a importância de se estender a reflexão acerca dos “novos” padrões comportamentais da sociedade, da importância do cuidado da saúde mental, da educação, do acesso à saúde, como também de segurança pública e condições adequadas de trabalho, no caso dos profissionais que executam suas atividades laborais sem segurança, sem instrumentos, sem formações adequadas, neste ultimo aspecto recordo-me de uma situação que ocorreu em 2017, na qual um segurança tocou fogo em 7 crianças numa escola em Minas Gerais.

O estresse é um dos fatores condicionantes para a eclosão de possíveis transtornos mentais ou surtos.

Retomando ao caso de Suzano, sabe-se que não existem manuais para a criação e instrução para formar pessoas, mas tenho visto muito como a globalização, o fácil acesso à tecnologia e internet tem interferido na relação humana; famílias que não se comunicam dentro de suas casas, pais inseguros diante do amadurecimento dos filhos, o diálogo e convivência familiar e social, sendo trocados por jogos, brinquedos e até celulares da última geração e aqui neste ponto ressalta-se o índice crescente de pais jovens, por vezes adolescentes também, em sua maioria frustrados, baixa auto-estima e falta de contexto e experiência de vida, tornando-os inaptos, em alguns casos ,para instruir ou formar novos cidadãos.

O fato que aconteceu, não é uma situação nova no Brasil, apenas se mudou o contexto, aumentaram-se as vítimas e os culpados, a variáveis são as mesmas, os sujeitos que mudaram, quem não lembra do caso do adolescente que matou dois colegas em Goiania? o motivo? Um conjunto de fatores.

Não se pode diminuir tamanha situação apenas a situação isolada de Bulliyng, todo ser humano possui seu limiar individual de tolerância e autodefesa, mas anterior a situação do bullying, está a formação desses cidadãos, o contexto em que estão inseridos, suas motivações e crenças/valores pessoais construídos na relação social.

Para a ocorrência do bulliyng, (anteriormente nomeada pelos pais e crianças de agressão física, xingamentos, exclusão dentre outras formas de tornar o outro alvo de comportamentos depreciativos), se dá pela omissão ou neutralidade de supervisores, ou adultos que possam estar intervindo adequadamente na situação, se dá pela existência de um ser fragilizado emocionalmente e com poucas habilidades sociais seja este o agressor ou mesmo a vítima da situação, a baixa tolerância a frustração e outros fatores;Não há como p rever a ocorrência de um comportamento sem uma observação ou conhecimento prévio do sujeito, más há como prevenir.

Não está se julgando aqui a habilidade ou não dos pais dos jovens que cometeram o ato, pois estes também sofrem, além do sofrimento da perda, o sentimento de culpa e as dúvidas que ficaram. Mas salienta-se que cada ser humano interpreta e reage de forma diferente a cada situação vivida, e tal situação interfere positivamente ou negativamente em si.

Quanto os benefícios e malefícios do uso excessivo de jogos de cunho violento na mente dos jovens?

Primeiramente, independente da temática, o malefício já se destaca na indagação com por meio do termo “Excessivo”. Tudo em excesso causa prejuízo, esta frase apesar de ser corriqueira, traz verdades em si.

É normal ouvirmos por aí que o cérebro é uma máquina, certamente, e toda maquina quanto trabalha em excesso pode “quebrar”, assim como se não usada da forma adequada pode ser prejudicial também.

Para o funcionamento do nosso corpo, para tomada de decisões, para execução das tarefas diárias, nosso cérebro conta com um conjunto de ferramentas as quais não são vistas e nem averiguadas com exames de rotina, são as chamadas funções executivas cerebrais, que são as habilidades de atenção, planejamento, organização, inteligência, controle inibitório, flexibilidade mental, e outras, tais funções são aperfeiçoadas ao longo do desenvolvimento humano através das situações as quais o ser humano é exposto diariamente desde o seu nascimento, e estas inclusive interferem na forma como se dá o comportamento humano, como ele resolve seus problemas, como se relaciona com os demais e também auxiliam na aprendizagem de novas habilidades sociais.

Conforme vamos nos desenvolvendo o cérebro passa por um processo nomeado de apoptose, vulgarmente chamada de “polda neural”, explicando de forma mais simples essa “polda” ocorre quando o cérebro entende que os neurônios que não estão sendo utilizados na ação humana estão ”ocupando espaço” e logo são descartados.

Então já se esbarra na primeira negativa para o uso excessivo de aparelhos eletrônicos desde a infância e/ou o uso excessivo de jogos na adolescência limitando o desenvolvimento de novas habilidades ou aperfeiçoamento de comportamentos sociais.

O segundo ponto, é o fato de que em 2017 a Organização Mundial de saúde, incluiu a dependência de internet e jogos eletrônicos como transtorno mental. A Dependência de Internet pode ser encontrada em qualquer faixa etária, nível educacional e estrato sócio-econômico. Alguns estudos apontam ainda a comorbidade com outros transtornos associados como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, dependência de substância psicoativa e transtornos de personalidade em adolescentes e adultos, e em crianças encontra-se o déficit de aprendizagem e o TDAH como maiores correlações.

Diante do contexto acima, a temática de interesse vai ser conforme o perfil comportamental, tendência à agressividade diante da inabilidade de resolução de problemas e comunicação assertiva do indivíduo.

Quais às atitudes que podemos perceber quando adolescentes/jovens como os que foram responsáveis pelo ataque demonstram perante a sociedade?

Em relação às atitudes preditivas a comportamentos heteroagressivos ou autoagressivos, é importante dizer que nenhum comportamento ocorre sem estímulo antecedente, contudo o comportamento é muito imprevisível a “olho nu”, ou seja, cada pessoa reage de forma diferente as situações que lhe são expostas. Pessoas, as quais possuem maiores informações ou condições de perceber tais comportamentos são as que possuem convívio diário, pois ressalta-se que o ambiente pode ser fator variável de mudanças de comportamento, ou seja, uma pessoa pode ter comportamentos diferentes com pessoas e/ou ambientes diferentes, e isso dificulta a “previsão” de riscos.

Contudo, ficar atento às mudanças de humor, sejam elas repentinas ou progressivo, mudanças de comportamento, frequências em estes ocorrem, durabilidade do curso dessa mudança comportamental, mudanças inclusive de vestimentas e/ou interesses, observar ciclos sociais, neste último aspecto, ressalta-se que na adolescência os jovem buscam se socializar mais, tentam encontrar grupos ou pares com os quais possuem identificação ou mesmo se acomodam à um grupo o qual o acolhe, e este ciclo social em maioria dos casos interferem significadamente nas atitudes dos adolescentes.

Como os pais/responsáveis devem agir com esse tipo de pessoa?

A sociedade tem sofrido constante mudanças ao decorrer dos anos, há tempos atrás vivíamos em uma educação restritiva e punitiva, atualmente vivemos em uma sociedade de “inaptidão social”, nas quais as pessoas buscam constantemente a aceitação de grupos ou perfis comportamentais impostos pela mídia ou pela cultura distorcida. Pessoas com medo de falar, de se expressarem, com baixa tolerância a frustração, com baixa auto-estima, pessoas com sentimento de incapacidade, com crenças distorcidas de “desamor, desvalor e desamparo”. Importante ressaltar que esse padrão comportamental é transmitido as crianças ainda pequenas, as quais multiplicam os comportamentos julgadores, preconceituosos e excludentes, desembocando em uma sociedade adoecida emocionalmente e mentalmente.

Ao perceber a mudança de comportamento, seja ela repentina ou progressiva, primeiramente, deve-se buscar abrir o espaço ao diálogo com o adolescente, de maneira que este não se sinta julgado ou com sua privacidade invadida, utilizar discurso assertivo, buscando compreender quais os motivos que ele/ela tem para tais reações, evitando posturas agressivas ou mesmo omissas, de forma a negligenciar o sentimento e as interpretações que o jovem possa ter diante dos conflitos que possa estar passando. Contudo, não só observar o comportamento do filho, mas também buscar estar em constante reflexão acerca do próprio comportamento e como este pode interferir no comportamento do outro.
Na medida em que se percebe a dificuldade para agir de forma adequada, deve-se de fato buscar orientação profissional, pois um comportamento isolado em um dia isolado é apenas um comportamento, mas a frequência deste, pode levar a consequências talvez irremediáveis.

Neste ponto, é importante ressaltar o preconceito que ainda existe acerca do ‘Cuidado com a saúde MENTAL’,  fala-se muito em estereótipos, saúde do corpo, mas esquece-se de cuidar do principal órgão, mestre do nosso corpo, que se adoecido inferferirá no bom fluxo dos demais.

Hoje fala-se em Suzano, mas trazendo a nossa realidade Delmirense, levando-se em consideração a discussão aqui realizada, saliento o índice de suicídios que ocorreram na Cidade de Delmiro Gouveia, por média, sem ter em mãos registros policiais, do ano de 2018 até março de 2019, recordo-me de aproximadamente 7 casos de jovens e adolescentes que tentarem e os que de fato cometeram o ato. Em sua maioria, se não todos com algum relato de Depressão.

Atualmente tenho restringido minha demanda de atendimentos à crianças e adolescentes, e tenho recebido constantemente crianças com faixas etárias de 4 à 5 anos de idade já com traços de Ansiedade, crianças com 6 anos com  sintomas depressivos, ainda nesta faixa etária relatos das próprias de experiências de bulliyng, como também tenho recebido adolescentes e jovens adultos com faixas etárias de 15 à 24 anos com idéias suicidas, com baixa tolerância a frustração, com baixa auto-estima, com cresças de desamor e desamparo, e cada vez mais esses números tem crescido.

Como psicóloga, qual a avaliação você faz perante as escolas municipais, estaduais e particulares no município de Delmiro Gouveia, existe uma prevenção para que tragédias como essa venham a ser evitadas?

O que percebo na rede pública de ensino, é a sobrecarga dos profissionais, a baixa valorização profissional, e em ambas (pública e particular) percebe-se a “multiprofissão”, na qual, professores são muitas vezes responsabilizados pela regulação ou mesmo ensino de comportamentos sociais, tanto as crianças como com os adolescentes, percebe-se em muitos casos a omissão dos responsáveis e a falta de comunicação entre profissionais e responsáveis, e que nas raras vezes em que esta ocorre, os pais adotam posturas ameaçadoras ou agressivas direcionada aos profissionais da rede Escolar, tal visão obtive através da vivência por quatro anos ocupando o cargo na rede pública, de psicóloga no Centro de Referência Especializado de Assistência Social em Delmiro Gouveia e Pariconha, em que realizei muitas visitas às escolas realizando trabalho educativo e de prevenção à violência.

Em visitas escolares também foi possível observar, a ausência de responsável ou profissional observando o comportamento das crianças ou adolescente que pudesse intervir em situações sociais no âmbito escolar, nas quais fosse possível ver comportamentos de exclusão, preconceito ou mesmo agressões verbais ou físicas, se voltarmos um pouco a tempos atrás, era comum ouvir situações de brigas na rua da cidade após torneios esportivos de escolas, brigas entre alunos de escola, muitas das vezes na porta da escola ou proximidades, e raramente alguma atitude era tomada, tanto pelos responsáveis como pelas instituições, pois após o portão da escola o aluno não é responsabilidade da instituição. São pensamentos dicotômicos e estreitos, pois a escola, o seio família, a sociedade como geral são determinantes e influenciadores na construção da pessoa.

Existe no congresso um projeto de Lei que tramita desde 2011, que estabelece a obrigatoriedade da presença de profissionais de psicologia nas escolas de ensino infantil e fundamental, e dá outras providências, mas que até hoje nunca foi à votação para ser promulgada.
Logo, diante do contexto atual, precisa-se repensar não só em “Fortalecer” a segurança dos portões da Escola, mas de repensar as práticas parentais, sociais e ofertar melhores condições de trabalho e acesso ao cuidado da saúde mental.

JULIANA KELMA ALVES SILVA
PSICÓLOGA CRP15/3623
NEUROPSICÓLOGA
TERAPEUTA COGNITIVO COMPORTAMENTAL
ATENDIMENTOS NA CLINICA MEDFISIO- DELMIRO GOUVEIA-AL



1 comentário: