As principais linhas de investigação apontam para uma provável superlotação do saveiro, que não tinha autorização para fazer o transporte de passageiros, e para uma briga que teria acontecido dentro da embarcação.


A Polícia Civil da Bahia e a Marinha apuram as causas e circunstâncias do naufrágio que deixou oito pessoas mortas na baía de Todos-os-Santos no domingo (21), quando fazia uma travessia entre a Ilha de Maria Guarda e a cidade de Madre de Deus (65 km de Salvador).

As principais linhas de investigação apontam para uma provável superlotação do saveiro, que não tinha autorização para fazer o transporte de passageiros, e para uma briga que teria acontecido dentro da embarcação.

Em entrevista à imprensa nesta segunda-feira (22), o capitão dos Portos da Bahia, comandante Wellington Lemos Gagno, disse que a suposta briga será investigada.

"Os inquéritos ainda vão apurar, mas uma briga pode ter levado as pessoas para um mesmo lado da embarcação. Isso move o centro de gravidade, tira estabilidade. Pode ser um dos fatores que levaram ao emborcamento da embarcação", afirmou.

A investigação da Polícia Civil está em uma fase inicial, mas a Folha apurou que a principal linha de investigação aponta para superlotação da embarcação.

Os investigadores já iniciaram a coleta de provas e de depoimentos de passageiros que sobreviveram ao naufrágio. O comandante da embarcação, que também é o proprietário, deve ser ouvido nesta terça-feira (23) na delegacia de Madre de Deus.

A Marinha instaurou um Inquérito sobre Acidentes e Fatos da Navegação para apurar as causas e circunstâncias do acidente. O inquérito deve ser concluído em até 90 dias, quando será encaminhado ao Tribunal Marítimo.

O saveiro, de nome "Gostosão FF", estava com documentação em dia, mas realizava transporte irregular de passageiros. O barco estava inscrito na Capitania dos Portos na classe "saveiro", que deve ser usado exclusivamente em atividades de esporte ou recreação.

A embarcação teria capacidade para transportar até dez passageiros, mas no momento do acidente carregava ao menos 14 pessoas.

Além dos oito mortos, outras seis pessoas foram hospitalizadas. Destas, duas tiveram alta médica e quatro continuavam internadas em hospitais da rede estadual.

As autoridades trabalham com a hipótese de que mais pessoas estavam no barco e sobreviveram, mas não precisaram de atendimento médico.

O acidente aconteceu por volta das 22h de domingo (21). Cinco vítimas haviam sido identificadas até a noite de segunda -uma criança, uma adolescente, um homem e duas mulheres.

Os nomes das cinco vítimas identificadas foram divulgados pela Polícia Civil da Bahia: Ryan Kevellyn de Souza Santos, 22; Flaviane Jesus dos Santos, 29; Jonathan Miguel de Jesus Santos, 7; Caroline Barbosa de Souza, 17; e Rosimeire Maria Souza Santana, 59.

A embarcação fazia um trajeto de aproximadamente dez minutos entre Maria Guarda e Madre de Deus. Os passageiros voltavam de uma festa que fazia parte da programação do Madre Verão, evento organizado pela prefeitura.

Equipes de buscas do Corpo de Bombeiros, Marinha e Polícia Militar localizaram na manhã desta terça-feira (23) os corpos de uma criança e um adulto, fazendo chegar a oito o número de mortos no naufrágio.

Os corpos foram encontrados nas proximidades da Ilha de Maria Guarda e foram encaminhados para o Departamento de Polícia Técnica para identificação. Os dois têm características semelhantes às das pessoas que estavam desaparecidas, que eram um homem adulto e uma criança do sexo feminino.

As buscas prosseguem na região de Madre de Deus, informou o Corpo de Bombeiros, mas não há notícias sobre outros desaparecidos.

47 MORTOS NA ÚLTIMA DÉCADA - Naufrágios e acidentes envolvendo embarcações na baía de Todos-os-Santos, uma das maiores do país, deixaram ao menos 47 mortos ao longo dos últimos dez anos. Os dados são da Marinha do Brasil, que registrou 238 acidentes na região desde 2014.

O naufrágio deste domingo, com oito mortos, é o segundo maior em número de vítimas na última década. O maior aconteceu em agosto de 2017, quando uma lancha que fazia o transporte de passageiros entre a Ilha de Itaparica e Salvador virou no meio da travessia, deixando 19 mortos.

A Polícia Civil concluiu o inquérito em 2018 e apontou como culpados pelo acidente o comandante, o engenheiro responsável e o proprietário da lancha. Fiscais da Marinha e da Agerba, órgão do governo estadual que atua na fiscalização do sistema de lanchas, não foram indiciados.

As investigações apontaram que o comandante da embarcação agiu com negligência e imperícia ao seguir viagem mesmo com ondas que chegavam a um metro de altura. Ele também seguiu por uma rota considerada mais perigosa e não adotou uma postura defensiva ao passar por bancos de areia.

O engenheiro técnico foi considerado responsável por erros nos cálculos que indicavam estabilidade da lancha. Já o proprietário foi apontado como negligente pelo fato de a embarcação não cumprir os critérios de estabilidade exigidos por lei.

A Marinha afirma que atua de forma constante e ostensiva na fiscalização de embarcações e do tráfego aquaviário na baía de Todos-os-Santos.

"Não há falta de fiscalização", disse o capitão dos Portos da Bahia, comandante Wellington Lemos Gagno, em entrevista nesta segunda, após o acidente em Madre de Deus. Ele destacou, contudo, o tamanho da baía como um desafio nas ações de fiscalização -são 1.233 km², uma área de tamanho equivalente ao da cidade do Rio de Janeiro.

Neste ano, segundo a Marinha, foram realizadas no âmbito da Operação Verão 11.400 abordagens a embarcações, que resultaram em 416 notificações e 35 apreensões por descumprimento das normas. No ano passado, foram 8.209 ações de abordagem.

Fonte: Folha Press.